Sono, Alimento e Compensação
É de consenso geral, para a Ciência Ocidental e para a Medicina Oriental, o benefício de boas horas de sono profundo e reparador. No entanto, a Academia Brasileira do Sono nos apresenta uma estatística de 70% dos brasileiros com algum tipo de distúrbio do sono.
De acordo com Varella (2016), existe uma Classificação Internacional de Distúrbios do Sono , que define a insônia como dificuldade de pegar no sono, de mantê-lo ou o despertar muito cedo, com sensação de noite mal dormida, além da sonolência ao longo do dia. Esse quadro crônico está associado à uma tendência maior ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, pulmonares e ao câncer.
Como também é de consenso a importância de uma dieta nutricionalmente equilibrada para a manutenção da saúde, que não é só fisiológica. A qualidade do que se sente e daquilo que pensamos também dependem dessas duas dimensões da nossa vida.
Neste texto, pretendo compartilhar de algumas reflexões que podem nos ajudar a identificar as causas de possíveis desafios ao bom sono e à dieta saudável.
O Yoga parte do pensamento de que todo ser humano busca prazer e conforto. Uma das fontes de seu sofrimento é a falta de saúde, que depende de fatores ambientais, sociais e do indivíduo. Vamos iniciar a nossa reflexão a partir da análise do indivíduo, cada ser vivencia de forma muito autentica a sua dinâmica do sono e os hábitos da alimentação.
Existem aquelas relações com sono e alimentação de mais convergência com as necessidades vitais: pessoas que sentem prazer em manter uma disciplina de sono e respeitam seu próprio ritmo, assim como a apreciação de alimentos naturais, integrais a partir de um estímulo familiar ou que partiu de um despertar pessoal desse paladar, isso faz com que as pessoas tenham relativa facilidade para manter sua saúde estável.
Em contrapartida, existem casos que potencializam o adoecimento: crianças que foram compensadas de seus tombos e processos emocionais com doces ou a construção de relações de compensação de dores, frustrações, inseguranças com festas e trabalhos que irrompem a madrugada, com mergulhos na ingestão de comidas gordurosas, doces ou extremamente salgadas, para tentar amenizar o desconforto, o sofrimento ou a dificuldade de lidar com as emoções. Esses são exemplos de comportamentos que podem abalar a saúde nas mais diversas fases de nossa vida.
Além disso, existem movimentos sociais, como os comerciais de alimentos ultra processados, o consumo desenfreado dos energéticos, o uso indiscriminado de emagrecedores, que condicionam certos comportamentos que, muitas vezes, passam desapercebidos no nosso cotidiano, por serem abordados como "adequados" ou "saudáveis". Sem falar de todo estímulo que as telas produzem, causando vícios e alterações metabólicas, nos conduzindo a um sono superficial e insatisfatório. Todos esses movimentos compõem o nosso contexto social atual e de atenção à saúde.
Onde se encontra você nesse processo? Como você tem se relacionado com as tuas emoções? Como tens se relacionado com tuas dores? Com tuas frustrações? Como estes elementos têm condicionado tuas relações com o sono e com a alimentação? O Yoga é esse processo de estabelecer perguntas e de encontrar as respostas na profundidade do ser, para além dos processos de racionalização, das respostas prontas e rápidas, dos enquadramentos em diagnósticos rígidos externos (que podem ajudar, como também acomodar ) que te desviam das causas reais das relações que te adoecem neste momento.
A compensação é um movimento de defesa que pode ser positivo, quando nos protege do contato com algum conteúdo muito pesado que, no presente momento, não estamos com estrutura para lidar. No entanto, ao reconhecer a compensação como um comportamento que mina o bom sono, a alimentação saudável, podemos transferir esse movimento a nosso favor: identificando um comportamento saudável e prazeroso que substitua o destrutivo. Somos capazes de realizar essa substituição se tomarmos consciência dessas relações, a partir das reflexões acima compartilhadas, observando nossa rotina, nossas transferências e reações às situações da vida.
Ao mesmo tempo, fazendo isso, teremos condições de construir uma estrutura mais complexa e sólida para , lá na frente, quem sabe, favorecer o contato e processamento das tuas questões mais doloridas. Ou seja, vale à pena!
Deixo vocês com uma linda reflexão de Desikachar, do seu belíssimo livro "O coração do Yoga", sobre Duhkha, a busca pela clareza por meio do Yoga, em um comentário de Vyasa ao Clássico Yoga Sutra:
"Alguém que está procurando por clareza sempre vê mais sofrimento do que alguém que não está. Essa consciência do sofrimento resulta de uma maior sensibilidade. A pessoa que não está procurando por clareza nem sabe o que lhe traz alegria ou tristeza".
O que te falta para levar esse movimento para tua prática de Yoga?
Pois vamos! Coletivamente é sempre mais fecundo!
Abraço de Sófi!
REFERÊNCIAS:
ABS. Academia Brasileira do Sono. Disponível em: https://absono.com.br.
DESIKACHAR, T.K.V. O coração do Yoga: desenvolvendo a prática pessoal. São Paulo: Mantra, 2018;
MICHAEL, T. O Yoga. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.
VARELLA, D. Palavra de Médico: Ciência, Saúde e Estilo de Vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
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