A IMPORTÂNCIA DO CONFLITO
Diferente de alguns textos do próprio blog, gostaria de construir, junto com você, um ritmo de pensamento livre, na ausência de citações, quebra de sintonias, como se a gente interrompesse a própria respiração para respirar em um ritmo que não é o nosso. Em uma conversa mais profunda e íntima, não é tão comum fazer citações.
Quero que esse texto seja como uma conversa, olho no olho, de mãos dadas.
Quando você escuta a palavra "conflito", o que te vem à cabeça? Uma agressão física? Uma briga? Uma conversa com desconforto? Silêncios com apertos na garganta ou no peito? Acho que citei algumas gradações da expressão da palavra na mente...mas vamos lá...antes de mergulhar no nosso tema da semana, preciso fazer links didáticos com os dois últimos textos de Tales Nunes: sobre o reconhecimento e importância do PRAZER nas nossas atividades e relações , mesmo quando estamos em momentos em que não enxergamos muito sentido em entrar em contato com ele e sobre o estado de ABERTURA, uma conexão constante corpo-mente para vivenciar as situações da vida , sem se deixar paralisar, repetir uma ação ou evitar o desafio, o aprendizado ou a mudança...
O conflito é esse lugar, em que é preciso da abertura constante, para que você seja quem é e possa favorecer que a outra pessoa também seja que ela é, sem deixar que o conflito vire briga. Essa postura diante do conflito pode gerar muito prazer, mesmo que ele exija muitíssimo de nós. Diante de toda essa introdução, digo a vocês que o CONFLITO pode, sim, ser CONSTRUTIVO. Sinto que ele tem sido negligenciado pela falta de reflexões mais comprometidas com o Bem Comum.
Somos pessoas muito diferentes em uma sociedade que nos impõe uma igualdade impossível e frustrante, quando, na verdade, precisamos de equidade (igualdade de oportunidades) para expressarmos todo o nosso potencial humano, sem oprimir, subjugar ou explorar ninguém ou a Natureza.
Sim, esse é um ideal politico, social e ambiental que nos é colocado em questão em todas as escolhas e situações da vida. Diante de nossos conflitos, estamos construindo ou destruindo a possibilidade da equidade. A questão é que, seja qual for o nível de intimidade ou de importância do encontro de duas ou mais pessoas, todos eles refletem emocionalmente, de algum modo ou nível, em nossas vidas e são as razões de nossos adoecimentos e das nossas alegrias.
Um caminho didático para entender o conflito como um movimento de construção de uma sociedade mais justa, é o de refletir sobre alguns passos, de suma importância , como perguntas a se fazer para nós, após ou durante uma situação:
1- Estamos agindo como se estivéssemos em uma competição?
(Esse movimento nos mantém no ímpeto de ganhar, mesmo quando o erro, a fragilidade é nossa. Isso faz com que o conflito fique girando em círculos, sem que as partes se entendam, saiam satisfeitas ou melhorando sua comunicação e, consequentemente, suas relações).
2- Estamos evitando entrar em contato com dores passadas?
(Esse movimento precisa ser olhado com mais cuidado, quando você não se sente forte para entrar em contato com uma situação muito parecida com outra do passado, respeite, mas é justo e honesto , contigo e com a outra pessoa, o reconhecimento dessa dificuldade. Aos poucos, e a partir desse acolhimento, você pode sentir mais segurança para processar essa dor por meio da própria relação que à resgatou para o presente).
3-Estamos com medo de nos mostrar vulneráveis?
(Gente! mesmo não querendo mostrar, mostramos...transbordamos vulnerabilidades, só não queremos transpô-las em nossas falas. No conflito, é construtivo estar na postura de transparência, desarmados, com disposição para reconhecer o erro, a fragilidade, aquilo que é preciso melhorar. Essa postura pode diluir as formas mais agressivas de conflito).
4- Estamos querendo que a outra pessoa pense ou aja como nós?
(Acredito que as formas mais agressivas são mais nutridas por essa atitude também. Existe tanta riqueza em querer saber como a outra pessoa pensaria ou agiria em uma determinada situação! Te dá a possibilidade de encarar, pensar, agir de maneiras diferentes. É no contato com a diferença que a gente se transforma! Mas, infelizmente, a mente é tão preguiçosa, no sentido de querer economizar energia para se manter, que esquece desse potencial extraordinário que está guardado nos conflitos E QUE SÓ PODE SER ACESSADO SE estivermos conscientes dele no momento em que o conflito acontece).
Esses quatro pontos já são pontos concentrados de elementos para esse auto-estudo que proponho. Nossas relações são nossas vidas, vale muito à pena refletir sobre como conduzimos os nossos conflitos ou os evitamos. Não deixe aquela conversa no vazio, não deixe de falar sua opinião honesta. A partir dessa reflexão, você pode ir aprendendo a resolver conflitos com respeito, acolhimento, reduzindo a possibilidade de mais e mais demandas emocionais e de questões não solucionadas.
E onde que a prática do Yoga se encaixa nesse assunto?
De forma bem direta, te digo, no momento do conflito, são importantes os exercícios presentes na prática de Yoga:
- para que você possa identificar o que acontece dentro de você (de onde vêm os pensamentos e reações aos conteúdos conversados), você precisa ter exercitado a observação das tuas sensações e emoções, para saber o que elas significam dentro de determinado contexto;
- o distanciamento do conteúdo dos pensamentos, para que você não reaja a algo que foi do passado e que não se aplica a situação presente ou tenha uma reação desproporcional, impulsiva. Caso aconteça, mesmo assim, que você possa reconhecer sua atitude e recuar, mudando o tom da conversa de forma consciente;
- a concentração, para que você possa escutar bem a outra pessoa e com abertura para respeitar a sua forma de ver a vida e as situações;
- o relaxamento, para que o impulso de raiva e agressividade não venha como defesa, um corpo tenso está pronto para o movimento de luta-fuga, que é instintivo;
- a presença, para a distinção do que é seu, do que é da outra pessoa, transferimos facilmente os nossos processos internos para o outro, o que traz confusão na comunicação. A presença no corpo, para as sensações e para respirações, pode nos trazer clareza e direcionamento do conflito para um lugar de fortalecimento das relações ;
Pense no Yoga como essa ferramenta de modificação da tua comunicação, você verá o quanto que ela pode contribuir para que o conflito seja um movimento de enriquecimento da tua vida e de transformação social.
Abraço de Sófi.
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